Superman | Deborah Sampson, Maria Quitéria e Maria Felipa: as mulheres na história

Depois de enfrentar ameaças cósmicas e apocalípticas, Superman e família resolvem tirar umas “férias”. Aproveitando o feriado de 4 de julho, Clark e Lois conduzem o filho Jonathan em uma viagem que passa por diversos pontos turísticos e históricos dos Estados Unidos. A viagem ao passado se torna um resgate da memória daqueles que lutaram por seus ideais e que acabaram caindo no esquecimento. Não é surpresa quando tais figuras se tratam de mulheres.

O roteiro de Peter Tomasi e Patrick Gleason é um fôlego após tantas ameças que a superfamília enfrentou, mas não menos empolgante. O arco publicado aqui no Brasil pela Panini na edição #15 de Superman é um convite para um estudo e descobertas das figuras femininas que atuaram e se destacaram na história.

Durante a viagem, a família Kent para no Cemitério Rock Ridge, localizado na região onde ocorreu uma das batalhas campais mais sangrentas de toda Guerra Civil Americana, em Gettysburg, na Pensilvânia. No cemitério, Lois leva Jonathan até o túmulo de Deborah Sampson e conta sua história:

“Ela se disfarçou de homem e lutou durante um ano e meio com a Exército Continental contra os ingleses. Deborah tinha 1,79 m e se alistou na Companhia de Infantaria Leve do Quarto Regimento de Massachusetts. Ajudou a fornecer cobertura ao flanco, além de assumir deveres de reconhecimento de território. Numa batalha foi ferida nas duas pernas e, antes que o médico pudesse examiná-la, fugiu pra ninguém descobrir que não era homem.

Ela retirou uma das balas de mosquete com um canivete e uma agulha de costura. A outra estava funda demais, então deixou lá e prosseguiu na luta. Deborah foi ferida de novo um ano depois, mas dessa vez um médico descobriu sua identidade. Em vez de ser repreendida, foi exonerada com honras em 1783.

Mas continuou lutando, dessa vez pelo seu pagamento e sua pensão, que o exército reteve porque ela era uma mulher. Peticionou ao congresso duas vezes e finalmente ganhou os 1536 dólares que o país lhe devia.”

Deborah Sampson

Ao ler sobre a história de Deborah Sampson em “Superman #15”, relacionei sua trajetória com a de outras mulheres que seguiram o mesmo caminho. Romperam com convenções de sua época e mostraram valentia e bravura num universo exclusivamente masculino. Você pode até pensar na Mulan do filme da Disney, onde a heroína se veste de guerreiro para enfrentar o exército huno que ameaça invadir a China. Porém, não fui muito longe. Aqui mesmo no Brasil, temos a história de mulheres que se assemelha a de Deborah Sampson. Estou falando de Maria Quitéria e Maria Felipa.

Maria Quitéria de Jesus nasceu no dia 27 de julho de 1792, no arraial de São José de Itapororocas, Bahia. Filha de Gonçalo Alves de Almeida, Maria Quitéria perdeu a mãe aos 10 anos e a relação com sua segunda madrasta não era nada harmônica. A menina passava a maior parte de seus dias fora de casa. Aprendeu a montar cavalo, manejar armas e pescar. Um comportamento que fugia aos padrões impostos as mulheres da época.

No dia 7 de setembro de 1822, D. Pedro, com o “Grito do Ipiranga”, proclamava a independência do Brasil. Porém até o reconhecimento formal desse novo status político do país, o primeiro imperador do Brasil contou com o desafio de manter a unidade territorial portuguesa na América intacta.

Algumas províncias não quiseram aderir a independência. Cisplatina, Bahia, Piauí, Maranhão e Grão-Pará, onde se registrava grande concentração de portugueses, queriam continuar a manter os laços com Portugal. Coube a D. Pedro I combater essa resistência e providenciou a compra de armas e navios, contratou mercenários estrangeiros e recrutou tropas nacionais.

Em 1822, o Conselho Interino da Bahia passou a recrutar voluntários para as forças de apoio a Independência. Quando mensageiros chegaram a fazenda de Gonçalo Alves, o pai de Maria Quitéria não quis se envolver no conflito de forma alguma. Porém sua filha demonstrou grande interesse pela proposta. Quitéria pediu permissão ao pai, que negou.

Mas Maria Quitéria estava disposta a participar das forças voluntárias pró-independência e com a ajuda de sua irmã, Tereza Maria, e seu cunhado, José Cordeiro Medeiros, ela pegou o uniforme dele, cortou os cabelos e se apresentou como homem ao Exército. Quitéria se alistou como o soldado Medeiros e fez parte do batalhão “Voluntários do Príncipe Dom Pedro”.

Após duas semanas, o pai de Maria Quitéria descobriu que a filha havia se alistado e delatou a situação ao major Castro e Silva, comandante da divisão. Porém, Quitéria já era conhecida por seus esforços no Exército, ganhou fama entre os militares por sua bravura, manejo com armas e assim, o major Castro e Silva não aceitou seu desligamento do Exército.

Maria Quitéria de Jesus Medeiros. Domenico Failutti. 1920.

Após ser descoberta e permanecer no Exército, Maria Quitéria passou a usar seu nome verdadeiro, trocou as vestes masculinas por saias e adereços. Inspirou outras mulheres a segui-la e formaram um grupo comandado pela própria Quitéria. Pela gola verde que usavam no uniforme, ficaram conhecidos como “Batalhão dos Periquitos”.

No batalhão, Maria participou de batalhas como na defesa da Ilha da Maré e na Barra do Paraguaçu, na Bahia, onde liderando um pelotão de mulheres impediu o desembarque de tropas de Portugal.

Em julho de 1823, com a derrota das tropas portuguesas na Bahia, Maria Quitéria foi promovida a cadete e reconhecida como heroína da independência. Foi homenageada pelo próprio D. Pedro I ao dar a ela o título de “Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”.

Após o fim das guerras pela independência, Maria Quitéria retornou para casa e D. Pedro, a pedido de Quitéria, escreveu a Gonçalo reconhecendo sua importância para o Brasil e pedindo que perdoasse a fuga da filha.

Maria Quitéria casou-se com Gabriel Pereira de Brito com quem teve uma filha, Luísa Maria da Conceição. Ao ficar viúva, mudou-se para Feira de Santana. Em 1834, foi para Salvador e faleceu no dia 21 de agosto de 1853, no anonimato. Ela foi enterrada na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, na capital da Bahia.

100 anos após sua morte, o Exército Brasileiro resolveu homenageá-la: decretou que seu retrato estivesse presente em todas as repartições e unidades do Exército.

Estátua em homenagem a Maria Quitéria, na Bahia.

Maria Quitéria de Jesus foi a primeira mulher a fazer parte do Exército Brasileiro. Tornou-se heroína da Independência do Brasil e símbolo da emancipação feminina. Mas não somente Maria Quitéria merece destaque nesse conflito. Entre as várias mulheres que lutaram contra os portugueses também é importante evocar o nome de Maria Felipa.

Pescadora, marisqueira que morava na Ponta das Baleias (Bahia), Maria Felipa era uma mulher negra que organizou  resistência contra as tropas portuguesas. Felipa liderou mulheres e homens de origens distintas: índios, negros, pobres e trabalhadores.

Fortificou praias, construiu trincheiras e enviou suprimentos para o Recôncavo. Maria Felipa junto com o povo chegou a queimar quarenta navios portugueses. Como armas usavam seus instrumentos: facas de cortar baleias ou peixeiras, assim também como pedaços de pau e galhos com espinhos. “As mulheres seduziam os portugueses, levavam pra uma praia, faziam com que eles bebessem, os despiam e davam uma surra de cansanção”, conta a historiadora Eny Kleyde Farias, no livro Maria Felipa de Oliveira: heroína da independência da Bahia (2010).

A história de Maria Felipa estava fadada ao esquecimento se não fosse a ação dos moradores de Itaparica. A população incluiu o nome dela em um monumento entre os heróis da independência.

“Nós tivemos a ousadia, tomamos a liberdade e contratamos um calígrafo que fez uma letra rigorosamente igual à que está lá e acrescentou o nome de Maria Felipa entre os nossos heróis”, confessa, aos risos, o pesquisador Augusto Albuquerque, morador de Itaparica.

As trajetórias de vida de Maria Quitéria e Maria Felipa, assim como a de Deborah Sampson, se somam a tantas outras trajetórias de mulheres que romperam com as convenções de suas épocas e se destacaram em ambientes destinados apenas ao homens.

É interessante uma reflexão desse tipo em uma história vindo das páginas de Superman. Pois tanto Deborah Sampson quando Maria Quitéria e Maria Felipa, em sua valentia, bravura e enfrentamento as convenções, nos lembra Lois Lane, personagem de destaque no universo do Homem de Aço que completa em 2018 seus 80 anos.

Ao saber sobre Deborah Sampson, John Kent questiona ao pai porque ele nunca tinha ouvido falar sobre ela nas aulas de história. Pergunto o mesmo em relação a Maria Quitéria e Maria Felipa. Como professor de História, tanto Quitéria quanto Felipa ganham seus espaços em minhas aulas, mesmo que o livro didático sequer lembre delas. Não se trata apenas de destacar o papel das mulheres na história, mas sim de justiça e resgate da nossa memória.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

GOMES, Laurentino. 1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

TOMASI, Peter J. & GLEASON, Patrick. Superman 15 – “Superman 27-28”. Editora Panini, 2018.

RUY, Carlos José. As Mulheres na Guerra pela Independência. Portal Vermelho. 2016. Disponível em: <http://www.vermelho.org.br/noticia/283127-1> Acesso em: set. 2018.

PACHECO, Clarissa. Quase um século depois, moradores de Itaparica incluem o nome de Maria Felipa entre os heróis. Geledés. 2017. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/quase-um-seculo-depois-moradores-incluem-nome-de-maria-felipa-entre-os-herois/> Acesso em: set. 2018.

Maria Felipa, a Heroína negra da Independência. Os Heróis do Brasil. Disponível em: <http://osheroisdobrasil.com.br/herois/maria-felipa-a-heroina-negra-da-independencia/> Acesso em: set. 2018.

JÚNIOR, Demercino José Silva. Maria Quitéria. Mundo Educação. Disponível em: <https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/historiadobrasil/maria-quiteria.htm> Acesso em: set. 2018.

Deborah Sampson (1760-1827). National Women’s History Museum. 2015. Disponível em: <https://www.womenshistory.org/education-resources/biographies/deborah-sampson> Acesso em: set. 2018.

Protegido pela identidade secreta de Luiz Alexandre de Andrade, o Professor DCnauta é historiador e também professor de história. Inspirado pelo Superman, buscando o preparo do Batman e espelhado na determinação da Mulher-Maravilha, o Professor DCnauta se junta ao time do Terraverso na busca de um mundo melhor (e sem rumores).

Professor DCnauta

Protegido pela identidade secreta de Luiz Alexandre de Andrade, o Professor DCnauta é historiador e também professor de história. Inspirado pelo Superman, buscando o preparo do Batman e espelhado na determinação da Mulher-Maravilha, o Professor DCnauta se junta ao time do Terraverso na busca de um mundo melhor (e sem rumores).