Crítica | Liga da Justiça Torre de Babel

É comum ouvirmos que uma das coisas mais legais da Liga da Justiça é a dinâmica entre os personagens, afinal explorar as relações entre seres tão poderosos, mas com personalidades tão distintas é um prato cheio. Principalmente na mão de roteiristas habilidosos, pois este é o caso aqui. Torre de Babel é escrita por Mark Waid, indicado 4 vezes ao Eisner de melhor escritor, prêmio que venceu em 2012. Uma de sua séries mais conhecidas é a belíssima Reino do Amanhã ao lado do talentoso Alex Ross (vencedora do Eisner de melhor série limitada), ou seja, nesta edição a Liga está em ótimas mãos.

Waid já provou por diversas vezes que entende de maneira profunda esses personagens. Em suas mãos sempre somos agraciados com novas facetas da personalidade destes heróis, sem nunca ficarmos com a sensação de deixaram de ser quem são. Em cada uma de suas histórias é como se ficássemos mais íntimos. E intimidade é exatamente o conceito escolhido pelo roteirista para chacoalhar as coisas desta vez.

Pense naquele amigo em quem você pode contar na hora do aperto, melhor em alguém a quem você confiaria seus maiores segredos. Imagine de repente seu pior inimigo se aproveitando de cada uma das suas fraquezas. Para enfim surpreender-se ao descobrir que aquele em quem você mais confiou é exatamente a pessoa responsável por este sofrimento. Doloroso, não? E se neste caso você fosse o Superman, e aquele seu amigo de confiança fosse o Batman? É com essa premissa extremamente mundana que Waid bagunça toda a dinâmica da mais poderosa equipe da DC. Em Torre de Babel, Ra’s Al Ghul derrota a Liga da Justiça inteira após roubar planos de contenção criados por Bruce Wayne. Superman, Mulher- Maravilha, Lanterna Verde, Flash, Aquaman, Caçador de Marte, Homem Borracha todos caem diante dos métodos desenvolvidos pelo morcego.

Ruídos na comunicação

O parágrafo acima pode parecer um spoiler, no entanto acalme-se apesar de chocante esse é somente o ponto de partida da trama. Como mencionado o autor utiliza muito bem do gancho para explorar a relação entre os personagens. Após a descoberta do motivo que levou a derrota, cada um dos membros vai encarar a sua maneira as decisões do detetive. Waid constrói com muita competência os momentos seguintes a descoberta abrindo momentos de tensão entre os heróis que acabam sendo tão intensos quanto as cenas de ação. Sempre respeitando a personalidade e a relação que cada um tinha com o Batman antes, isto torna extremamente crível a maneira como lidam com o problema. O ponto alto fica mesmo nas páginas dedicadas a relação do Homem de Aço e o Cavaleiro das Trevas. Nesses momentos o autor brilha em utilizar de maneira eficaz não só os poucos diálogos, mas principalmente os pesados silêncios entre os amigos. Desconstruindo com maestria o elo entre dois dos maiores personagens dos quadrinhos.

Apesar de o ponto central ser o abalo da relação entre os personagens a historia ainda guarda outras ótimas surpresas. O plano de Ras para extinguir parte da população da terra é bem original – o vilão desenvolve um sinal para embaralhar a comunicação entre as pessoas, transformando à Terra em uma verdadeira Torre de Babel. No entanto aqui talvez resida um dos poucos pontos fracos do roteiro. Waid coloca o vilão em segundo plano na história usando seu plano muito mais como uma metáfora ligada ao ponto central da trama. Apesar disso a situação rende ótimas cenas de ação enquanto os heróis buscam deter os planos do vilão. Destaque para maneira pouco usual com que a Mulher-Maravilha detém uma das principais ameaças da trama (método habilmente ligado a origem pacifista da Amazona). Somado a isso estão os elaborados esquemas desenvolvidos por Bruce para deter os amigos. Cada um deles é derrotado de maneira bastante original e explorando de maneira única as fraquezas dos personagens.

Saudades Alex Ross

Se por um lado o enredo é só elogios os pontos negativos ficam por conta da arte. Mark Waid já teve companhia melhor, chega a ser covardia citar Alex Ross. Nesta série, Howard Porter é o responsável pelos desenhos e não dá conta de acompanhar o inspirado roteiro. Difícil não se incomodar com as caretas extremamente forçadas com que ele desenha os personagens em cenas mais dramáticas. O visual plástico do desenhista remete o tempo inteiro a brinquedos, parecendo que estamos vendo bonecos interpretando as situações diminuindo em muito o impacto de passagens importantes. Se por um lado pode ser só uma questão de estilo existem momentos em que é nítida a falta de qualidade dos traços.

Na historia bônus intitulada Culpa, o D. Curtis Johnson explora o roubo dos arquivos e aproveita para detalhar como foram desenvolvidos. A história poderia ser redundante, mas se salva com detalhes bacanas e bons diálogos.

Nessa edição estão reunidos os principais elementos de um gibi bom de verdade. Personagens cativantes, uma trama ágil e empolgante, ótimas cenas de ação. É como estar vendo um filme daqueles que te colocam na ponta da poltrona, onde o coração salta a cada página virada. Apesar de acenar o tempo todo para o estilo pipoca, Mark Waid sabe como dar coração a suas obras. Escrevendo sobre seres que parecem deuses e seus conflitos em escala global, o roteirista escancara naquilo que os une o seu lado mais humano. Confiança este elo extremamente mundano baseado na simplicidade do dialogo se mostra a maior força e maior fraqueza da imbatível Liga da Justiça .

Sobre a edição:

A edição desta crítica é o volume 4 da DC Comics coleção de graphic novels da Eaglemoss. A edição compila os números 43-46 de JLA e JLA Secret files 3, inclui também a primeira aparição da Liga em Brave and the Bold #28. Apesar do preço um pouco salgado a edição tem bom acabamento. De negativo faltou revisar os nomes dos autores nos créditos que aparecem juntos e a falta de extras. E não poderia deixar de citar a capa horrível, ainda que a arte não ajude, o layout escolhido pela editora é feio de doer. E uma dica é não ler a introdução que contém pequenos spoilers da edição.

Jornalista formado pela FAPCOM, iludido com a ideia de transformar o hobby em profissão. Um milhão de projetos na mente e outras centenas de páginas em branco. O objetivo é preencher uma de cada vez, um dia chego lá. A rotina certeira do desenrolar dos dias é meu pior inimigo, a arte e as paixões são minha fuga.

Shelton Silva

Jornalista formado pela FAPCOM, iludido com a ideia de transformar o hobby em profissão. Um milhão de projetos na mente e outras centenas de páginas em branco. O objetivo é preencher uma de cada vez, um dia chego lá. A rotina certeira do desenrolar dos dias é meu pior inimigo, a arte e as paixões são minha fuga.

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