Batman Ninja | Um espetáculo visual e cheio de energia que leva Gotham até o Japão Feudal

O quão desafiador e intimidador deve ser trabalhar personagens, já a tempos conhecidos do público, e entregar um material realmente inovador e único. Talvez essa seja a primeira percepção racional minutos após absorver toda a insanidade e vitalidade de Batman Ninja, animação da DC Comics em produção desde 2014 e que visa incorporar e explorar os elementos das animações japonesas em uma história do Homem-Morcego. E aqui o desafio não é só buscar novas visões para Batman e Coringa, personagens com mais de 75 anos, e outras grandes figuras do cânone do herói, mas também inovar dentro da estrutura das animações da DC Comics. Buscar novos caminhos estéticos, narrativos e técnicos que também trouxessem um frescor para as produções da DC Animation.

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Com direção de Junpei Mizusaki (diretor de Zoo e com experiência no departamento de animação de jogos da série Megaman) e reunindo um time de peso e com grande experiência em animes, Batman Ninja se prova como um grande espetáculo visual, sustentado por um roteiro divertido, direto e empolgante. Tudo começa com uma noite normal em Gotham onde, após o confronto da Bat-família com o Gorila Grodd no Asilo Arkham, um acidente com um dispositivo temporal acaba jogando heróis e vilões no Japão Feudal. A história escrita por Kazuki Nakashima (roteirista de Kill La Kill, Tengen Toppa Guren Lagan, Kamen Rider) e Joe Chu (Afro Samurai) é cheia de energia e em menos de 30 minutos já consegue construir toda uma nova lógica, que é utilizada no tempo restante para brincar com conceitos e possibilidades (ou mesmo para destruí-los em seguida). O maior mérito do roteiro é de jogar com as novas abordagens dos personagens, em especial com Batman e Coringa, sem perder sua essência original e até trazendo um pouco do que parece ter sido esquecido já faz certo tempo. Usando bem do contraste presente no tempo retratado e na cultura japonesa, Kazuki/Chu buscam revisitar o mito dos arqui-inimigos e aproveitar tudo que surge destes novos pontos de vista. Outro ponto interessante a se observar no roteiro é como a obra referencia a cultura, tradição e história japonesa. Mais do que apenas citação ou inspiração, esses elementos constroem a história e a maneira de contá-la, permitindo que Batman Ninja se dê ao direito de entregar-se para as loucuras e exageros típicos das obras japonesas, que vão da pacata era feudal até os turbulentos Super Sentais. Essas liberdades narrativas, assim como a proposta da animação em si, farão com que Batman Ninja possa não agradar fãs mais “puristas” e tradicionais, e que precisam de mais justificativas para conseguir imergir em universos alternativos. Batman Ninja poderia até se dar mais tempo de tela para se aproveitar, se curtir, ou explicar melhor alguns acontecimentos e informações para estes espectadores. Por outro lado, os que gostam de novas perspectivas e de abordagens Elsewords terão grande facilidade.

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A maior qualidade de Batman Ninja está em seu visual. Tudo é belo e fantástico, de causar sentimento de contemplação no espectador. A fotografia busca cores quentes e vivas, e cenas de explosões e paisagens enchem os olhos. E não é só o grandioso que chama a atenção, os detalhes também são fundamentais. Isso é visível no design dos personagens, feito por Takashi Okazaki (Afro Samurai, Furi), que dá personalidade e charme próprios a cada um dos heróis e vilões, com figurinos que são verdadeiras pinturas. Mas o melhor de tudo é que nada disso é estático, tudo é vivo, tudo tem movimento e texturas. Os animadores não tem preguiça de mover todos esses tecidos, armaduras e penteados em sequências de ação gloriosas, que não desperdiçam um frame sequer. As cenas de luta foram filmadas com atores de verdade e depois animadas minuciosamente com base em seus movimentos. Isso por si só já seria o suficiente para conseguir nossa atenção, mas o grande trunfo aqui é que esses movimentos viscerais e virtuosos são feitos por personagens que já conhecemos e que nunca vimos nesse estado. Já vimos Batman e Coringa se enfrentando antes, mas nunca com katanas e nunca com os movimentos e energia que temos em Batman Ninja. O mais interessante é que o filme não se limita na identidade visual que constrói e busca sempre inserir elementos novos para chamar o espectador ainda mais para dentro da história, seja utilizando novas formas e texturas de uso do CGI, com a introdução de mapas ou em uma sequência de aquarela, que também já introduz em Batman Ninja o característico trato emocional que as animações japonesas possuem. E tudo isso embalado pela trilha sonora de Yugo Kanno (Ajin, JoJo Bizarre Adventure, Psycho-Pass) que busca o épico e o ancestral das músicas japonesas com toques que remetem a trilhas clássicas e conhecidas do Batman.

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Em japonês ou em inglês, a dublagem de Batman Ninja é um espetáculo á parte. Além de caírem perfeitamente com os personagens, o mérito se dá pela movimentação da boca, que é de um cuidado raro de se ver. Kôichi Yamadera e Roger Craig Smith assumem bem o manto do Morcego. Rie Kugimiya/Tara Strong como Arlequina e Ai Kakuma/Grey DeLisle no papel de Mulher-Gato também merecem destaque, assim como Adam Croasdell, que faz as vozes de Alfred e Asa Noturna, que são bem diferentes entre si. Porém, como já é de se esperar, são os Coringas que roubam a cena. Wataru Takagi na versão japonesa e Tony Hale (famoso por interpretar Buster Bluth em Arrested Development) na versão americana. Tony Hale é, possivelmente, a melhor voz para o Coringa desde Mark Hamill, conseguindo imprimir muito bem o aspecto bobo e brincalhão do personagem que reinou nas Eras de Prata e Bronze, cheio de trocadilhos e piadas linguísticas. Porém, Hale também consegue nos entregar o Príncipe Palhaço psicótico e visceral que todos amamos, que começou a ser mais explorado da década de 80 até os dias atuais. O acerto também é do roteiro, que consegue escrever linhas realmente divertidas para o Coringa (como há muito tempo não se via) e uma sequência no terceiro ato que é de tirar o fôlego. É nessa sequência que Batman Ninja concretiza sua missão com sucesso: levar ao espectador um filme enérgico e dinâmico, que consegue explorar a rivalidade de 75 anos do Batman e do Coringa sob uma ótica renovada, com um visual que abre ainda mais o campo para as futuras animações da DC Comics. E, se é possível sonhar, torçamos para que Batman Ninja venha a se tornar um jogo algum dia. Potencial neste universo e neste visual existe. E muito.

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Enfim…

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Batman Ninja é excitante e frenético, cheio de energia e vitalidade. É uma animação enlouquecida mas, ao mesmo tempo, muito sóbria. Com um visual maravilhoso e contando com alguns dos artistas mais talentosos das produções japonesas, a animação explora todas as possibilidades que seus personagens oferecem quando transportados para o universo dos animes e suas lógicas. Um espetáculo de cores e explosões ensandecidas, Batman Ninja nos apresenta novas formas de olhar não só para o Batman, mas para as próprias animações da DC Comics. Um frescor, que abre novos caminhos para o futuro. Em tempos onde os filmes de herói e universos cinematográficos tem recebido o grande foco dos fãs, Batman Ninja chega com força e estilo – e pode muito bem ser a obra mais atraente do gênero de super-herói no ano de 2018.

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Sou daqueles que saía correndo na saída da escola pra almoçar assistindo Liga da Justiça. Daqueles que juntava o troco do pão pra comprar gibi no sebo. Feliz de viver na melhor época pra ser nerd. Sem editorismo, amai-vos uns aos outros! A alvorada dos heróis ainda vai durar por muitos anos! Que Snydeus seja louvado e que Stan Lee viva pra sempre!

Rodolfo Chagas

Sou daqueles que saía correndo na saída da escola pra almoçar assistindo Liga da Justiça. Daqueles que juntava o troco do pão pra comprar gibi no sebo. Feliz de viver na melhor época pra ser nerd. Sem editorismo, amai-vos uns aos outros! A alvorada dos heróis ainda vai durar por muitos anos! Que Snydeus seja louvado e que Stan Lee viva pra sempre!

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